quinta-feira, 17 de julho de 2008
I
Em uma das intermináveis florestas da Índia (estranho afirmar tal característica, elas são intermináveis), os tigres reinavam. Só precisavam de seu porte para fazer com que os outros tremessem e abaixassem a cabeça perante a sua majestade. As florestas sob o comando de tais felinos eram cruéis, cheiravam a sangue, e poucos se aventuravam nelas nessa época.
Um desses Tigres, imponentes como reis, tentava conversar com o macaco calmamente, sem devorá-lo com uma bocada.
—Então, macaco, convença a todos a irem, preciso da resposta o mais rápido possível.
O macaco, que visivelmente gostaria de evitar tal fardo, agora tremia de medo. Apesar do tigre já ter convocado todos os membros para a reunião, mas ele precisava saber que o encontro seria certo. Ele tinha uma certa necessidade em ter uma confirmação oficial.
—Tudo bem, líder da Floresta— O tigre já o tinha intimidado tanto que o macaco passava a chamá-lo assim —Vou convocá-los, mas não garanto suas respostas.
A aparência do felino era de colocar medo até mesmo em tigres maiores que ele. Seus pêlos, ao contrário de um tigre comum, eram negros, e cortados por rajadas alaranjadas. Seus olhos vinham de um vermelho profundo, maldoso e antigo. As garras, sempre que outro poderia reparar em suas patas, estavam a mostra. O barulho que elas faziam nas pedras era de deixar muitos inquietos só de ouvi-lo.
—Pode deixar comigo essa parte— disse o tigre, sorrindo maliciosamente
— O que você acha disso tudo? De eu ser o líder da Floresta?— perguntou ele, com um fingido interesse na resposta. Ele parecia perguntar aquilo somente por hábito. Mesmo assim, a resposta do macaco tinha que ser satisfatória, para o seu próprio bem. E o macaco tinha fama de dar respostas impulsivas, sem pensar.
—Acho que vamos prosperar muito, líder. Você tem idéias avançadas para nós— disse o macaco, temendo falar outra coisa ao Tigre.
Ele tinha uma grande fama na Floresta, o que remetia a sua ascendência e a sua espécie.
No auge do reinado dos tigres (ou o mais próximo disso), uma fêmea, desejada por muitos machos, dá a luz a um filhote macho, que viria a ser chamado de Share Khan. O filhote em pouco tempo se mostrou especial.
Ao contrário de muitos tigres, Share Khan tinha pêlos de cores diferentes do que os tigres convencionais. Essa aparência o consagrou como o mais próximo de um rei que os tigres haviam de ter. Mas ele também nascera coxo, e portanto tinha que provar seu valor desde o início de sua vida até a sua morte.
Quando o filhote aprendeu a andar, sua progenitora percebeu o defeito de seu futuro senhor. Segundo as leis mais antigas que as próprias florestas, Share Khan deveria ser morto. O Filhote teve que se defender de sua própria mãe, poucos momentos depois de ter saído de seu ventre. Mas ele, apesar de coxo, era dotado de uma vontade de viver ainda maior que muitos animais da floresta. Com isso, ele fora presenteado por uma enorme força e tamanho, incomuns até nos maiores tigres encontrados pelo mundo, além de uma esperteza maligna.
Sua mãe tinha acabado de dar a luz a Share Khan (e somente ele), e por isso estava fraca. Mesmo assim, fora um feito incrível Share Khan ter matado sua mãe, sua primeira refeição. Alguns podem dizer que o único sentimento de proteção que todos vão ter em comum é o de proteger a mãe, e que aqueles que o perderam são assassinos. Esta teoria, nesse caso não é descartada.
Ao morrer, a mãe, sorrindo maliciosamente, apelida o filho de "O Coxo", apelido este que passa a impregnar Share Khan, e qualquer um que o conheça, vai se lembrar deste título.
Com o passar dos tempos, o tigre, sempre enfrentando um desafio mais difícil que o anterior, finalmente declara que será o Senhor da Floresta.
Os animais, alarmados que assim seu conforto (pois eles estavam confortáveis com a solidão dos Tigres), convocam Share Khan e mais alguns tigres para uma reunião, na qual será decidido o futuro das selvas indianas (assim diziam os macacos, repassando toda a informação).
II
O clima era perturbador naquela clareira, aonde os animais mais importantes se reuniam. Os tigres ainda não tinham chegado ao local de encontro. Todos estavam preocupados, murmurando palavras que transbordavam medo. A lua estava alta, cheia, mas mesmo assim pouco de sua luz chegava até eles. As estrelas estavam mais brilhantes aquele dia.
Tac, Tac, Tac, era ouvido, e quase todos já sabiam o que esse barulho queria dizer. Eles se olharam, preocupados.
Foi quando apareceram, imponentes, ameaçando, espalhando ainda mais o medo. Rosnavam baixo, um som grave, que silenciava a todos, e criava uma atmosfera ainda mais tensa. Muitos animais que em outros lugares seriam suas presas estavam ali, o que não poderia ser dito de sua coragem. Seus instintos primitivos gritavam para que estivessem longe dali, mas como os instintos eram primitivos demais para entender a civilizada reunião, eles ficaram (Embora a coragem tenha seguido o conselho e fugido, com medo).
Com seus pêlos negros entrecortados por raios alaranjados, olhos de um vermelho vívido, o auto-intitulado Senhor da Floresta liderava o bando dos impetuosos. Share Khan olhava imponentemente, como deveria ser, enquanto tomava o seu lugar na reunião.
—Que todos façam silêncio!— ordenou o macaco, que presidia a reunião. Não era preciso pedir por silêncio— Nós, os animais, nos reunimos para decidir o reinado da Floresta, que por muito tempo ficou sem um líder, agora reclamado por Share Khan, O Coxo.
—Escolha todas as suas próximas palavras com cuidado, Macaco, pois você irá depender delas para que não vire comida hoje— disse o tigre, ofendido, mas calmo.
O macaco, percebendo a ênfase no "hoje" da fala do tigre, fica mudo por um tempo, pensando. Se alguém parasse para escutar, ouviria seu cérebro escolhendo suas palavras com cuidado.
—Muito bem. Share Khan, como todos sabemos, venceu todos os desafios impostos pelos habitantes das Florestas, e agora está pronto para assumir a liderança da Floresta.
Muitos dos animais que estavam ali presentes murmuravam entre si, conversando sobre os desafios vencidos, muitos impostos por aqueles que estavam na reunião. O macaco pediu silêncio novamente.
—Bom, pelo que eu me lembre, ainda posso propor um desafio— disse a coruja, que havia se mantido quieta por todo o tempo.
—O que?! Isso eu não posso aceitar!— rugiu o tigre, olhando diretamente para a coruja, visivelmente irritado— Desde que saí do ventre de minha mãe, venho enfrentando desafios que vocês propõem, só para ter a liderança da Floresta. Agora que consigo convocar a reunião, me vem uma coruja e acha que pode impor mais um desafio?! Agora é tarde.
E então a discussão estava armada, e todos os animais discutiam, alguns tagarelas por medo dos rugidos da parte dos tigres. Mas logo o macaco conseguiu chegar ao silêncio.
—Share Khan, embora cumprindo todos os desafios, ainda deve aceitar o desafio da coruja, senão a liderança da Floresta lhe será negada— disse o macaco, com sábias palavras, muito bem analisadas.
O tigre sabia que se não aceitasse, os animais iriam brigar com ele, porque sabiam que ele não os perdoaria, e seria mais fácil matá-lo quando estiverem em maior número. Não que ele, com o apoio dos outros tigres, não conseguisse matá-los, mas após isso, quem ele iria liderar? Não haveria sentido em ser um líder sem ter ninguém para liderar, apenas outros tigres, que já eram seus subordinados.
—Muito bem, eu aceito o desafio. Já venci todos os outros, um a mais não será problema. Mas terá que ser decidido aqui que, quando eu terminar o desafio, serei o líder da Floresta, porque não quero perder tempo em convocar a reunião novamente. Todos de acordo?— perguntou Share Khan, intimidando o macaco com o jeito que só os tigres sabiam fazer.
—Muito bem, quem não concorda com a proposta, que fale agora!— disse o macaco medrosamente.
O tigre observava calmamente, animal por animal, para que, se houvesse alguma oposição, ele se lembrasse muito bem da face daquele que o atrapalhou. Ninguém falava.
—Ninguém? Muito bem, está decidido que, quando Share Khan cumprir seu desafio, será o líder da Floresta!— somente o risinho desdenhoso do tigre foi uma boa reação à decisão —Agora a coruja irá propor o desafio!
—Share Khan terá que enfrentar e abater os primeiros bandos de Macacos-pelados que aparecerem no caminho novo. A cabeça das vítimas deverá ser preservada. Ele deverá fazer isso sozinho.
Pela primeira vez os lobos foram vistos, saídos das trevas, orgulhosos. Quem os liderava era Akela, o mais forte e mais sábio dos lobos presentes. Eles pareciam desgostosos com o que fora dito, não se sabe sobre o que especificamente.
—O caminho novo, o caminho que os grandes sapos passam, é nosso. Todos sabem disso. É o nosso território de caçada, e aceitamos isso. Comemos somente a carne dos grandes sapos, e mais nada. Não admito que tomem nosso território.
Os pêlos marrom, preto, branco e cinza das costas de Akela estavam eriçados, e ele mostrava os dentes enquanto falava. Seus olhos amarelos demonstravam um indignação maior do que poderia ser dita pelo macaco, com suas palavras enfeitadas.
—Esse foi o meu desafio, e não vou mudá-lo. Talvez Akela deva ceder dessa vez, para evitar uma briga com Share Khan— ressaltou a coruja, tirando qualquer expressão dos olhos de Akela, e a satisfação nos do tigre. Ele odiava Akela, por quase fazê-lo perder um de seus desafios e porque não gostava dos caninos, também.
O lobo, receosamente saindo de seus pensamentos, encarou a coruja, com seus olhos penetrantes, e essa o encarou de volta. Se ela pudesse sorrir, lhe daria um sorriso tranqüilo, frio.
—Muito bem, dessa vez vou ceder. Mas que fique claro que, se ele não abater a todos de uma vez, ele terá perdido o desafio.
O tigre nem precisou pensar duas vezes, e aceitou. O desafio tinha ficado ainda mais difícil, mas ele era Share Khan, o Senhor das Florestas, e eles, somente grandes sapos.
—Então está decidido. Share Khan, querendo ser o líder da Floresta, irá realizar o seu último desafio, proposto pela coruja. Ele trará a cabeça dos macacos pelados como prova de que o desafio foi comprido. Alguns macacos também o vigiarão, como meus observadores.
E então, o último desafio foi proposto.
III
Os lobos se reuniam antes de irem descansar. Akela os convocara, e eles obedeciam, mesmo famintos e cansados. Todos também pareciam preocupados com que seu líder iria dizer, e alguns só pareciam estar esperando pelo que ele iria dizer.
—Alguns de vocês não deverão concordar com o que digo, e alguns irão. Espero que a maioria opte pela segunda opção— disse o lobo, sentando sobre suas patas traseiras, enquanto esperava todos se acomodarem— Como muitos viram, eu não concordei com o desafio proposto pela coruja. Só aceitei porque não temos força para abater Share Khan.
Alguns lobos discordaram, rosnaram e desafiaram Share Khan a aparecer no local. Akela simplesmente esperou até que se calassem, o que foi bem rápido.
—O que eu tenho em mente é de irmos até o caminho novo, e atrairmos a maior quantidade de grandes sapos até aonde Share Khan estará esperando– e desta vez não esperou os outros lobos pararem de falar. Com um latido forte todos se calaram — Também não gosto disso, mas gosto menos ainda de ter que caçar em uma floresta liderada por um grande gato coxo.
O insulto resultaria na morte de Akela, se fosse escutado por Share Khan. Mas como não foi, somente mostrou para os lobos a raiva por Share Khan e a falta de limites de Akela, impressionando-os.
Até que todos concordaram, depois de pensarem muito. Eles realmente precisavam que Share Khan não tomasse o controle da Floresta. Com esse método, ou ele morreria pela mão dos macacos pelados, ou perderia o desafio.
—Muito bem, descansaremos hoje, amanhã partiremos para o mais perto do bando de grandes sapos o possível.
–Mas Akela, como saberemos que eles não irão nos matar antes que Share Khan apareça?
—Os grandes sapos são criaturas estúpidas— respondeu Akela ao jovem lobo, e, vendo que a dúvida ainda continuava em sua cabeça, continua respondendo —Veja, eles matam a si mesmos, já muito disso. Prendem vacas em grandes campos, para tomar seu leite (que espécie de animal crescido eles são, bebendo leite até depois de grandes?), e se fossem mais espertos, não entrariam nas Florestas. Agora vamos descansar, chega de conversas.
IV
A tocaia do tigre durava mais do que o esperado e o recomendado. Share Khan esperava sozinho pelos grandes sapos. Às vezes ele ouvia um uivo de aviso dos lobos, e esperava que Akela aparecesse, somente para ter o que fazer enquanto esperava. Mas os desejos do tigre não pareciam ser correspondidos. Ele já tinha que fazer cumprir aquele último desafio, e teria que arranjar uma desculpa para acabar com o líder dos lobos, porque ele poderia se tornar uma ameaça.
As árvores pareciam zombar de Share Khan, como que se dissessem que ele era um inútil incapaz de cumprir o desafio, e que até os grandes sapos eram mais espertos que ele. As árvores falavam muito, ultimamente e por isso o tigre afiava suas garras nelas.
O felino também percebera a presença sempre constante de um dos macacos mandados para vigiá-lo. Se Share Khan não conseguisse cumprir o desafio, todos da selva rapidamente iriam ficar sabendo.
A fome predominava em todo o corpo do tigre, e ele somente podia se contentar com aquela carne rançosa e rareada de uma cobra. Em uma de suas caçadas ele conseguiu um filhote de porco do mato, mas nada daquilo era o suficiente para o seu enorme apetite.
Enquanto esperava, ele lambia seu pêlo, lustrando-o. Ele se orgulhava de sua cor diferente, assim como um rei se orgulha de sua coroa. As cicatrizes por todo o corpo também indicavam as várias batalhas que esteve, e saíra vitorioso delas. Algumas dessas cicatrizes foram feitas por outros tigres na tentativa de defenderem o seu território ou a sua fêmea.
Todos aqueles tigres que acompanhavam Share Khan na reunião na verdade eram suas consortes tigresas, todas tomadas de outros machos. A maioria dos filhotes que Share Khan tivera conhecimento de nascerem, morreram por suas próprias garras, pois ele não queria competição e ainda tinha um medo instintivo de que seus filhos também sejam poderosos, e assim prontos para tomarem o lugar de seu progenitor. De fato ele teve de brigar com alguns de seus filhotes mais crescidos, mas nada que correspondesse aos seus medos.
E então o vento mudou e Share Khan, que estava estirado na grama a frente, se levantou rapidamente, pois sentiu o estranho cheiro dos grandes sapos, disfarçados por aromas de plantas que ele já sentira o odor. Ele se espreguiçava para que os músculos não o colocassem em perigo depois.
Os grandes sapos tinham instrumentos estranhos nas mãos, de aspecto letal para Share Khan. O medo e a apreensão eram exalados pelo grande bando de indivíduos.
O tigre percebia tanta malícia em seu modo de andar que duvidou que visse essa característica em algum outro animal. Eles pareciam proteger outros de sua espécie, menos capazes. Um comportamento até inteligente para uma espécie inferior. Share Khan também sentia que havia uma fêmea no local, e além do medo dela, conseguia perceber que ela estava no cio, mas não teria tempo para pensar nisso. Um leve cheiro de leite estava no ar. O tigre achava ridículo que eles continuassem bebendo leite até depois de desmamados.
Eles pareciam comunicar entre si, rapidamente, mas era uma língua de idiotas, e Share Khan não podia e nem queria entendê-los. Quando estavam se aproximando, ele já havia preparado o seu bote, no qual a perna direita de trás recebia mais peso que a esquerda, que era a perna aleijada. O tigre já tinha feito isso tantas vezes que sua deficiência não afetava mais o bote.
Agora as presas do tigre se localizavam na jugular do maior e mais perigoso que ele tinha procurado. Sangue jorrava aos montes, seguindo o compasso de sua pulsação, assim como a vida esvaia do indivíduo.
Todos os outros sapos corriam ou gritavam, ao passo que apenas alguns tinha pegado aqueles estranhos objetos que mais pareciam galhos de alguma árvore e apontavam em direção ao Tigre. Mas o rugido ouvido logo depois que o primeiro homem caíra paralisou a todos, ficando em seu lugar, sem atirarem.
—Presas deveriam fugir. É assim que elas fazem no mundo civilizado, sapos— disse o tigre, com as presas a mostra.
Ele se sentia ridículo por falar com criaturas tão estúpidas, sabendo que elas não iriam responder nada de modo coerente. Ao passo que pensava isso, ele abatia mais um daqueles macacos pelados. O sangue agora assumia o papel da água, formando poças por onde Share Khan passava.
Mais alguns foram abatidos até que algum sapo mais brilhante usava seu galho, dessa vez bem comum, mas de sua ponta surgia uma luz intensa, da mesma cor que vários tigres possuíam. Aquela luz era quente, e se movia. Share Khan já tinha visto esse tipo de luz, mas muito maior, em árvores secas. Os sapos pareciam controlar aquela luz, e Share Khan recuava, olhando para o galho, que dançava em sua frente.
Alguns sapos fugiam para a Floresta, alguns ficavam. Aquilo lembrou Share Khan algo ainda mais aterrorizante: Perder o desafio.
De um salto, ele ataca o sapo mais próximo daquele que segurava o galho, e o derruba em cima do outro. Aquele já iria morrer, pela profundidade das garras que rasgaram sua barriga, e o outro teve a sua cabeça mordida rapidamente.
Se tinha uma parte da caçada que Share Khan odiava, era a de correr atrás das presas. Se ele tivesse as pernas boas, não odiaria tanto.
A sua sorte era que os sapos não conheciam a Floresta tão bem quanto o felino, e ainda corriam sobre duas pernas, e ele, com três (ou quatro, dependendo do ponto de vista).
Todos os macacos pelados foram alcançados pelo tigre e pela morte, alguns tarde, outros cedo. Share Khan agora só sentia o cheiro de sangue, e com uma fome acumulada de vários dias sem comer direito, começa a devorar suas vítimas, que não tinham muita carne, mas eram muitas, uma das mulheres, aquela que estava no cio, tinha o cheiro de leite, e de outra pessoa.
V
A segunda reunião foi convocada pelo macaco no outro dia, na mesma clareira. Quando chegaram, Share Khan já estava lá, os esperando. Agora o local estava decorado com várias cabeças dos grandes sapos, que já estavam começando a feder. Share Khan pretendia dar aquelas cabeças aos abutres.
—Muito bem, aqui estou, e aqui estão as suas cabeças. Sou o seu novo líder.
O corpo do tigre estava pintado de vermelho, o que lhe dava um aspecto ainda mais aterrorizante. Algumas feridas poderiam ser vistas se o sangue fosse lavado pela água.
O primeiro animal a se manifestar foi a coruja, que se dirigiu diretamente a um dos macacos que ali estavam. Ela parecia estar decidida.
—Todos foram abatidos? Share Khan caçou a todos sozinho?— Não que a coruja tenha ficado fora do assunto, porque não ficou. Ela perguntava aquilo mais para parecer inocente.
O macaco, com uma vergonha visível por alguém importante falar com ele de forma direta, estava mudo. Todos esperavam a resposta óbvia.
—Não, o tigre não matou.
A resposta não viera da boca do macaco, e sim de Akela, que estava no chão, perto das árvores. Aos seus pés estava um filhote dos grandes sapos, muito quieto, observando tudo aquilo. O cheiro que o bebê tinha era o mesmo cheiro daquela fêmea que Share Khan havia caçado, e ele se lembrou disso.
—Não! A criança não estava lá, pergunte ao macaco! Ele sabe que não estava!— O tigre parecia aflito e ao mesmo tempo irado, ele só olhava para o bebê. Alguns acreditavam que ele iria atacá-lo ali na clareira.
Os macacos que tinham sido observadores confirmaram que o bebê estava no local, mas que Share Khan não o havia abatido, nem o percebido. Akela parecia estar ainda mais satisfeito, e encarava o tigre, pronto para reagir se ele tentasse algo.
—Alguém raptou esse filhote e disse que ele estava lá!— implorava Share Khan, agora olhando para todos a sua volta. E depois olhou para o líder dos lobos —E porque ele está com a criança? Todos sabem que ele sente inveja da minha força...
—Inveja você diz, Share Coxo! Acho que os meus lobos mais jovens se lembrariam de abater um filhote indefeso, se fosse preciso.
—Então por que não abateram? Você não teve essa falha com os sapos anteriores— disse o tigre, com os pelos das costas se eriçando —Sabe o que acho? Acho que você que fez isso, você que não quer a minha liderança. Acho que vou acabar com você agora. Ou você poderia me entregar o filhote, e esqueço a sua traição.
Os lobos se agruparam, rosnando e mostrando os dentes. Akela, que era o maior deles, estava mais calmo, mas ainda alerta. Ele observava que agora Share Khan não mais receberia o apoio dos outros animais. Ele tinha falhado.
—Não lhe cederemos esse filhote, esse Mogli, Share Khan. Não nos alimentamos de sua vida porque o criaremos, porque essas criaturas não devem ser tão estúpidas assim, já que um filhote conseguiu escapar do grande tigre manco. Ele foi encontrado por Raksha e por Pai Lobo, e será criado pelo nosso bando. Será tratado como um lobo, e terá o respeito de um lobo. Ao uivo desse filhote, iremos em seu socorro, caso estiver correndo perigo, e o perigo correrá dos lobos. Quem tiver que lidar com ele, estará lidando com um lobo, então tomem muito cuidado.
O discurso de Akela fora o que precisou para enfurecer o felino por completo. Ele, com o bote armado, pula em direção ao lobo e seu novo filhote. Mas o que ele não esperava era que todos os animais ao seu redor esperavam que ele saltasse, e se amontoaram quando ele caiu, escorraçando-o violentamente.
Enquanto isso, a coruja observava de um galho alto, e Akela somente lhe dirigiu um olhar cheio de significados.



1 comentários:
Gostei do texto, mesmo ele tendo me mostrado que eu não vi Mogli. Fabula interessante, gostei da visão dos bichos sobre os seres humanos, bem mais interessante que a maioria das fabulas que já li. Tirando as do Neil, claro.
Postar um comentário